Quando ingressou na Escola de Belas Artes, Miguel Angel provavelmente não sabia o que lhe esperava, o golpe militar, a vida de revolucionário
– Con el arte solamente no se puede
tornou-se chofer da embaixada da Finlândia no Chile e extraditava uruguaios com a ajuda da namorada finlandesa, meu pai
– Sempre tive vergonha de ter estudado no colégio militar, meu primo que abriu-me os olhos
chorando ao contar-me, disse que não tivesse vergonha, que por vezes não vemos mesmo
– Con el arte solamente
Miguel Angel refugiado na Argentina fundando o Partido por la Victoria del Pueblo, a prisão. Colocaram-no também no segundo voo da morte, abriu-se a rampa de lançamento do avião e logo todos os presos políticos estavam no ar girando, o que ele pensaria naquele momento
– Con el arte
pensaria na Violeta, na casa do Prado, na filha
– Sempre tive vergonha
descendo em queda livre, meu pai abrindo os armários com os álbuns de fotos, hasteando a bandeira no colégio
– Meu primo que abriu-me os olhos
no Rio ligando para a mãe, estava tudo bem e ela em breve poderia vir visitá-lo, a passagem de ônibus era barata, era atravessar o litoral do Brasil de preferência no inverno por conta do calor, Miguel Angel girava no ar, o avião distante, a Violeta telefonando
– Chiche tu primo desaparició
percorrendo o Chile e a Argentina atrás do filho, prestes a embarcar agora para a Bolívia
– Viola no te vayas no ves que Miguel Angel ya no está
minha avó desistindo de convencê-la, servindo-lhe mais leite no chá
– Chiche tu primo
caindo numa velocidade cada vez maior
– Chiche
eu no quintal da casa do Prado com a cachorrinha Blacky, a sombra cheia de bolotas que a parreira fazia, a Violeta
– Miguelito no tengas miedo ella no muerde
falava um espanhol rápido e embolado mas isso pude entender
– Miguelito no tengas miedo
o nariz curvo que lhe caía perfeitamente, as cócegas, eu pedindo que parasse
– Miguelito
o armário cheio de tralhas do meu avô, costumava fabricar-me espadas e escudos feitos de sucata
– Touché
agachando-se para lutarmos de igual para igual, jogando-se no chão, estava derrotado e eu era mesmo o mais bravo cavaleiro que já se vira naquele quintal, meu avô Totito jogando cartas, a venda da casa, as bengalas, minha avó
– Viola no te vayas
mudaram-se para Pocitos, o asilo da Violeta era perto, ela como sempre tricotando no canto da sala, o alzheimer
– ¿Telma donde está mi hijo?
servindo-lhe mais leite no chá
– Viola no
a queda livre, o mar cada vez mais perto
– Touché
meses depois encontraram alguns corpos na baía de Cabo Polónio mas Miguel Angel continuou desaparecido, eu voltando ao Uruguai e a Violeta no aeroporto
– Miguelito
feliz por ver-nos, fazendo-me cócegas
– Miguelito
vi uma foto dela com vinte anos debruçada num parapeito, botas até o joelho, teria andado de cavalo naquele mesmo dia, teria levantado o rosto e o nariz para sentir o vento forte de Lavalleja, meu pai fechando o álbum, guardando-o de volta no armário
– Sempre tive
o mar de Montevideo, não entendo porque as pessoas não mergulham, ficam apenas no calçadão, talvez porque tenham visto os corpos chegando à beira da praia em Cabo Polónio, talvez por causa da água marrom, quando vou à rambla e vejo a areia vazia dá-me uma pena, o mar sem ninguém, as pessoas na orla olhando em direção ao horizonte como se vissem algo, como se as ondas fossem lhes trazer alguém que não veem há muito tempo, do outro lado está a Argentina e disseram-me que agora os barcos para lá saem de uma em uma hora.
3 meses atrás
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