02/02/2012

passava mais rápido quando

O tempo é tão
pesado pra você,
não?
A possibilidade
dos cabelos brancos
das rugas
das coisas passarem. Eu
não me importo muito,
e me espanto –

morrer pra você é
inaceitável

por que a vida acaba, por que
ficamos mais velhos, por que
tanta dor. A dor
te assusta, aquelas dores à noite,
sua avó no hospital, o silêncio.

O tempo
passava mais rápido quando
nós
alguns carros passando
lá fora,
a gente não queria
que o tempo passasse.

Você dormiu,
agora.

09/02/2011

consolação

Você me disse que se eu fosse reto na Consolação sairia na Rebouças, que por sua vez cruza a Faria Lima, dobrar à direita e pronto, era por ali o caminho do shopping. Você me esperava lá, uma mensagem de texto um pouco antes dizendo que já tinha chegado. Eu ainda demorava um pouco, que o trânsito estava bem ruim naquele dia. Estava com saudades do Rio e hoje você que está por lá de visita. Sua avó no apartamento do Leme, as enfermeiras que revezam. Ela diz: “minha netinha minha netinha”. Acho bonito à beça o fato de ela dizer sempre duas vezes qualquer coisa. Como quando fala “minha querida minha querida” ao te ver entrar pela porta com a mala e o computador na bolsa. Como se sempre tivesse de repetir para enfatizar aquilo, que você é mesmo querida, a única neta etc. No hospital ela me disse isso. E que era fundista, nadava da pedra do Leme ao forte numa boa. Ao me ver chegar perto da cama perguntou, como sempre: “tudo bem com você, tudo bem?”. Tudo parado na Consolação e você me esperava um pouco mais, sem problemas, era até bom que dava tempo de ir no Extra. Hoje é aniversário do meu pai e você vai no jantar, aí no Rio. Pensei em ligar de novo só pra pegar todo mundo junto por lá e ir falando com um de cada vez, essa mania do meu pai de logo passar o telefone pra quem está do lado e depois ir dando a instrução de passar adiante o celular, afinal era eu na linha. Como se quisesse me colocar lá no meio. Liguei mesmo porque o trânsito estava inacreditável. O barulho no restaurante era tanto que mal consegui ouvir o que falavam. Acho que já tinham cantado o parabéns. Só consegui te dizer que estava parado na Consolação, sorte que você volta amanhã, antes que você passasse o celular para o próximo da fila.

28/01/2011

volta pelo aterro

Olhar o Pão
de Açúcar aqui
da Guanabara à noite
leva uma tristeza.

Essas flores de luz
dos postes atravessando
o Aterro não mentem –
a volta pra São
Paulo não tarda.

E seu rosto
iluminado também
no banco de trás
do carro
(de tão perto vejo
meio embaçado
seu sorriso
aberto
escancarado).

E penso
o Aterro poderia ter
mais vinte quilômetros
até o aeroporto
que eu observaria
todas as flores de luz
passando
sem cansar
e sussuro pra você
a viagem foi
tão rápida

dois dias não
dão pra nada.

24/12/2010

navidad

Quer o Natal tenha significado ou não pra você, a história de um Deus que se torna ser humano, a Palavra (Verbo) que se faz carne, é belíssima. No meio do “jingle hells” (shoppings cheios, engarrafamento, ipads à venda, preparativos pro ano-novo), tento não perder isso de vista. Como disse o Guimarães Rosa, "narrar é resistir". Faço parte dessa resistência e vou continuar narrando por aí: Deus amou ao mundo tanto que se reaproximou dele de forma definitiva. Jesus Cristo é a face mais humana de um Deus que ainda nos ama.

Feliz Natal a todos!

08/07/2010

vila forte

Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?
António Lobo Antunes


pai, na verdade eu tinha receio de subir com a ajuda do cara dos cavalos, aquela piscina redonda, os azulejos que deslizavam tanto, eu com quatro anos te escalando, vestindo a sunga azul que ganhei no aniversário (depois de abrir o embrulho com o novo megazord, claro), já dezenove anos que fomos ao Vila Forte, por causa do metal úmido escorreguei e cortei o queixo no trepa-trepa (ontem choveu, aqui em São Paulo a frente fria ainda não arredou), voltamos à Joatinga, o barulho do mar antes de dormir, as ondas lá embaixo – não disse, os cavalos não fazem mesmo sombra no mar, já se foram

29/03/2010

para conhecimento – juan gelman

"enquanto nos amamos/ um cão
late na cozinha íntima/
tecemos vida e morte/
olhos puros tua mão/

onde está o cântico/
dos cânticos?/ o
visível que munda noutro lugar?/
abrirá o ar que não se deu?/

estariam escritos os escritos
de dois em um/ a obra
que não preserva nada?/

nunca sabemos o que aconteceu/ a noite
somos nós/ tranquila/
cala abismos/"


GELMAN, Juan. "Sépase", in Mundar. Buenos Aires: Seix Barral, 2007, p. 47. Tradução minha.

Juan Gelman nasceu em Buenos Aires, em 1930. É um dos maiores poetas argentinos do século XX. No Brasil, apenas alguns de seus livros foram traduzidos. Este
Mundar ainda é inédito por aqui. Abaixo, o poema original.

Sépase

"mientras te amo/ un perro
ladra en la íntima cocina/
cosemos vida y muerte/
ojos puros tu mano/

¿a dónde se fue la canción/
de las canciones?/ ¿el
visible que munda en otra parte?/
¿abre el aire que no sucedió?/

¿estaba escrita la escritura
de dos en uno/ la obra
que no conserva nada?/

nunca sabemos qué pasó/la noche
es nosotros/ tranquila/
calla abismos/"

10/02/2010

a pequena chama – juana de ibarbourou

"Eu sinto um amor selvagem pela luz.
Cada pequena chama me encanta e me ultrapassa.
Não é cada lume um cálice que conduz
O calor das almas que encontra em sua jornada?

Algumas são pequenas, azuis, tremelicantes,
Iguais às almas taciturnas e bondosas.
Outras são quase brancas: lírios fulgurantes.
Outras, quase vermelhas: espíritos de rosas.

Respeito e adoro a luz como se fosse inteira
Uma coisa viva, que sente, que medita,
Um ser que nos contempla, transformado em fogueira.

Assim, quando morrer, hei de ser, a seu lado,
Uma pequena chama de doçura infinita
Em suas noites longas de amante desolado."


IBARBOUROU, Juana de. "La pequeña llama", in Lenguas de diamante. Montevidéu, 1919. Tradução minha.

Juana de Ibarbourou (1892-1979) foi uma poeta uruguaia incrível. Começou a publicar seus poemas apenas com 16 anos de idade, antes de se começar a falar em modernismo aqui na América do Sul. Embora sua poesia seja composta de sonetos, versos com métrica e rimados, Juana influenciou muito sua geração e seus sucessores, não apenas no Uruguai, mas em todo continente e na Espanha. O desnudamento sincero da alma – muito além de fórmulas prontas e pastelões – impressiona, ainda mais vindo de uma mulher naquela sociedade. Suas obras completas já foram editadas três vezes na Espanha pela Aguilar, e ainda assim Juana nunca foi traduzida no Brasil. Abaixo, o soneto original.



La pequeña llama

"Yo siento por la luz un amor de salvaje.
Cada pequeña llama me encanta y sobrecoge.
No será, cada lumbre, un cáliz que recoge
El calor de las almas que pasan en su viaje?

Hay unas pequeñitas, azules, temblorosas,
Lo mismo que las almas taciturnas y buenas.
Hay otras casi blancas: fulgores de azucenas.
Hay otras casi rojas: espíritus de rosas.

Yo respecto y adoro la luz como si fuera
Una cosa que vive, que siente, que medita,
Un ser que nos contempla transformado en hoguera.

Así, cuando yo muera, he de ser a tu lado,
Una pequeña llama de dulzura infinita
Para tus largas noches de amante desolado."

28/01/2010

cheiros – salvador puig

"Casa, o cheiro de casa
há muito tempo se foi
e foi ao que busca
entre as sombras a sombra
de seu corpo, o pão caseiro.

O cheiro d’água, da água
que habita num lugar
onde as sombras andam
por dentro de todas as sombras.

Com cheiros somente deveria ser possível
fazer-se o sol, e a seguir a lua,
as estrelas, uma mão e,
se houvesse tempo, uma casa de
verdade, um pão caseiro."


PUIG, Salvador. "Olores", in Escritorio. Montevidéu: Linardi y Risso, 2006. Tradução minha.


Olores

"Casa, el olor a casa,
a tiempo que se fue de la mano,
a la mano que busca
entre las sombras la sombra
de su cuerpo, el pan casero.

Olor a agua, al agua
que habita en un lugar
donde las sombras andan
por adentro de todas las sombras.

Con sólo olor debiera ser posible
hacer el sol, luego la luna,
las estrellas, una mano y
si el tiempo alcanza, una casa
visible, un pan casero."

09/01/2010

abra as janelas assim o quarto respira

– Abra as janelas assim o quarto respira

cresci com essa ideia de cômodos sufocados após uma noite de sono, abro as janelas levanto a tela de mosquitos e pronto eis o quarto respirando, eis o vento levantando as cortinas e secando a cama cheia de suor

– Como pode suar tanto durante a noite Clarice

posso, reviro-me durante a noite, esses pesadelos que não param de vir, repetem-se, estou correndo na praia e tanta chuva contra meus olhos, o céu escuro o mar escuro a espuma branca das ondas imensas, quantas ondas que vão tomando toda a areia, o nível do mar subindo e já não vejo meus pés, a chuva espessa como o mar, tudo cinza à minha volta e logo negro e logo minha tia abrindo a porta

– Como pode suar tanto

assustando-se mais uma vez com a cama molhada, criou-me sozinha dado que meu pai desconhecido e minha mãe morta no parto, como terá sido esse dia no hospital, uma vida chegando e outra partindo, terão comemorado meu nascimento, os hospitais que muitas vezes quase não têm janelas, corredores azuis e brancos, os quartos em sequência, talvez quando nasci e consequentemente minha mãe faleceu minha tia

– Abra as janelas assim o quarto respira

correndo até o outro lado do cômodo e abrindo as janelas antes de mim num movimento brusco

– Assim

saindo apressada do hospital comigo em seu colo, minha sobrinha coitada não tinha mais ninguém, a Gabriela tão depressiva, dissemos à Clarice que ela morreu no parto mas a verdade é que jogou-se do quarto, não consigo entender o que chamam de depressão pós-parto, como uma mulher pode ficar daquele jeito depois de ter uma filha que deveria significar alegria, nossos primos vindo ao hospital onde a Gabriela já não estava, a polícia em volta, sacos plásticos pretos, a rua interditada, não abra a janela Clarice do contrário sua mãe

do contrário ela

melhor não dizer, morreu depois do parto minha filha e pronto, sempre lhe tratei

– Minha filha

embora quando das janelas

– Assim o quarto respira Clarice

nunca entendi o porquê de dormir com o quarto tão fechado, suava a camisola inteira, era preciso trocar-lhe os lençóis quase de dois em dois dias, fecho as janelas tia porque do contrário minha mãe

(contou-me certa vez um primo de vocês)

quer dizer fecho as janelas tia porque incomoda-me este vento todo, as cortinas batendo contra a parede, as corujas lá fora e penso que só aqui onde moro elas ainda existem, incomoda-me toda esta agitação noturna e por isso fecho as janelas, por isso e não porque do contrário minha mãe

(atira-se devo dizer?)

porque incomoda-me a agitação desta noite, não quero que a chuva espessa entre no quarto e cubra toda a areia e se misture com o mar e logo tudo negro à minha volta, corria com a Clarice no colo saindo do hospital horrorizada, os carros de polícia, nem sei se alguém prestou depoimento, talvez uma enfermeira, por sorte a Clarice já podia sair da incubadora e sendo assim

– Minha filha

levei-a para casa rapidamente, a Clarice embrulhada, a chuva espessa cobria meus olhos e misturava-se ao mar, abra as janelas Clarice e deixe-me entrar do contrário você

– Minha

deixe-me de janelas fechadas tia senão

deixe-me dormir do contrário as corujas já vêm e a noite agita-se insuportavelmente.

27/12/2009

dulce

Meus primeiros cinco filhos nasceram um atrás do outro mas este último

(que ninguém me ouça)

parece que é mais, não sei, talvez pela diferença maior de idade em relação aos outros irmãos, o mais novo estava com oito e eu já não esperava mais um filho, talvez por ser o único branco e nós todos pretos em casa, o único filho do Osvaldo que obviamente é branco, meu ex-marido Moacir nem quero saber mas este sim que me acompanha

– Meu velho

falo e ele sempre

– Estamos juntos preta

ajudou-me a construir minha casa junto com o João e o Leandro, meus mais velhos, os três trabalham de pedreiros e eu uma empregada doméstica, o Jonathan foi o sexto e último, sem dúvida, afinal já tenho mais de quarenta anos, pensei em que nome daria sendo que todos os que um dia pensei já havia posto, Leandro Andreia João Andressa Leonardo e este agora, podia ter sido Jônatas mas acabei decidindo que Jonathan, minha casa em Queimados repleta de netos, a neta mais velha é a filha da Andreia que tem a mesma idade do Jonathan, imagine-se o tio com a mesma idade da sobrinha, essas voltas que a vida vai dando e quando um se dá conta

– Meu velho

desde os dezesseis anos que trabalho de empregada doméstica

(digo dezesseis mas a verdade é que já perdi a conta, minha data de aniversário vinte e três ou vinte e quatro de setembro, nunca lembro, o ano então nem se fala)

e os últimos vinte e poucos na casa da dona Sônia, seu filho Gabriel vi-o crescer então também meu filho, era meu único filho branco mas agora também o Jônatas, quer dizer, Jonathan porque achei melhor, quando eu era pequeno chamava a Dulce

– Guegué

porquanto não conseguia pronunciar seu nome que hoje acho belíssimo, Dulce que faz lembrar a Dulcineia do Quixote, certa vez contei-lhe esta história, um cavaleiro meio doido que se autointitulava Dom Quixote encontra uma mulher desconhecida e logo

– Dulcineia

repare esse nome doce saindo da boca do cavaleiro e que beleza em nomear alguém que você não conhece, olhou-a simplesmente e

– Dulcineia

segundo ele Dulcineia del Toboso, o que o Quixote teria enxergado naquele momento, não mais gigantes em moinhos de vento, os moinhos não tinham nome e era preciso derrubar a estes gigantes contudo Dulcineia teve nome e não teve necessidade de ser derrubada, essas coisas a que a literatura te leva, Dulce que nome doce mesmo e pensar que eu em pequeno

– Guegué

e logo não estava mais sozinho, meus pais no trabalho, os bonecos, o lego para montar, o videogame e a Dulce fingindo perder sempre, como as lembranças vão enchendo rapidamente a página Dulce, o Biel em pequeno dizia às outras empregadas do condomínio que não podiam conversar comigo, que coisa feia afinal não tinham seus trabalhos também, vi este menino crescer e meu Deus já quase trinta anos, hoje vou à sua casa apenas três vezes na semana, dona Sônia tão boa comigo, ajudou quando o Leo nasceu, o Jonathan eu podia levar comigo para o trabalho, meus dois filhos brancos juntos, o Biel quando pequeno ensinava-me o inglês que aprendia no colégio, queria me contar tudo que aprendia, eu trocando as panelas de boca no fogão e ele

– Guegué

atrasando o jantar, dona Sônia se chegasse do trabalho e a mesa não estivesse posta encrencava, a casa na Joatinga tão longe, precisava apanhar três ônibus e toda aquela demora, hoje é tão mais fácil até porque de Queimados para a Tijuca tomo um ônibus só que me deixa muito perto, dona Sônia sozinha com o Biel, meus três filhos mais velhos já sairam de casa, todos casados, já me vieram quatro netos e agora é a Andressa que está grávida, o Leonardo dezoito anos já com um filho, que descuido, não adianta alertar que esses meninos

– Está bem mãe

e não está, a família vai inchando, a Dulce junto comigo colhendo plantas no pátio do condomínio, colocando-as numa panela e pronto eu um grande cozinheiro mexendo com a colher de pau, aquelas plantas dentro da água movendo-se lentamente, o tempo também num movimento lento naquela época, ao menos parece-me hoje ao lembrar e viu só Dulce como as lembranças encheram mais uma página, viu como o Quixote estava certo embora eu em menino

– Guegué

já que não podia Dulce muito menos Dulcineia que dirá do Toboso e ela desfazendo-se em atenções e cuidados

– Biel

verdade que sempre

– Biel

em sua boca, nunca

– Filho

como minha mãe, claro, nunca

– Querido

ou o que fosse, gritava

– Biel

da cozinha e às vezes eu fazia de conta que não tinha escutado só para ela mais uma vez

– Biel

e com quanta alegria escutava meu nome em sua boca Dulce, o meu querido Biel, às vezes penso se ele lembra das naves espaciais de lego que montávamos juntos, dos desenhos animados, das espadas uma maior que a outra que ele colecionava, quantos brinquedos meu Deus, por sorte os que ele não usava mais iam lá para casa e o Leonardo e o Jonathan usavam-nos, a dona Sônia tão bondosa, tenho sete filhos preciso admitir, sempre quis poder dizer ao Biel

– Querido

ou

– Filho

mas como se era filho da dona Sônia, não meu, estive lendo mais uma vez o Quixote de Cervantes e não me canso de ler

– Dulcineia

aquele grito apaixonado e quanta beleza em nomear o desconhecido, coisas da literatura Dulce, às vezes não entendo porque só se escreve a respeito do que já passou, será que eles vão lembrar, prometo que não vou pedir mais nada se ao invés de

– Biel

você

– Querido

ou ainda

– Filho

prometo que vou continuar enchendo as páginas Dulce, prometo que

– Filho

e não me importa que a dona Sônia me ouça Biel, meu querido Biel, juro que

– Querido

de agora em diante, Dulce venha comigo até o pátio colher algumas plantas, dê-me mais uma vez aquela colher de pau sem que minha mãe saiba, por favor

– Guegué

não a literatura, não os moinhos, não os jantares na mesa mas panelas repletas de plantas e água, espadas, naves espaciais, essas lembranças que como era de se esperar encheram mais uma página.

24/12/2009

put the lights on the tree

Dezembro foi um mês corrido e consequentemente sem posts. Mas era imprescindível deixar aqui um feliz Natal para todos os queridos leitores deste blog! Abaixo um belo poema de S. João, na tradução magistral de Eugene Peterson. Logo após, uma tentativa minha de tradução da tradução:

"The Word became flesh and blood,
and moved into the neighborhood.
We saw the glory with our own eyes,
the one-of-a-kind glory,
like Father, like Son,
Generous inside and out,
true from start to finish."

(John 1:14, The Message)

--

"A Palavra tornou-se carne e sangue
e mudou-se para a vizinhança.
Nós vimos a glória com nossos próprios olhos,
glória inigualável,
como Pai, como Filho,
Ricamente generoso,
verdadeiro do início ao fim."

29/11/2009

espantam-me essas flores

Minha avó costumava orgulhar-se

– Se cheguei aos setenta anos assim continuo pelo menos mais uns vinte

ajudante de enfermagem, hoje em seu funeral lembrava-me de como costumava me mostrar as seringas explicando que para achar a veia era necessário apertar bem forte o elástico, eu com os meus seis anos olhava-a como se pudesse curar qualquer doença, quando me resfriava era a vó trazendo os remédios, a vitamina C, o própolis para a garganta caso inflamasse

– Anda sempre doente o menino Carla

minha mãe tendo que ouvir mais uma vez suas recomendações, que não me deixasse brincar ao sereno, que fosse à minha escola ver como nos cuidavam. Hoje neste funeral

digo, neste cortejo longuíssimo

vejo minha avó deitada, as mãos sobre os seios que quando menino impressionavam-me por serem tão grandes, o volume em sua blusa, usava-os de almofada quando assistia televisão deitado em seu sofá, os doces que ela comprava na feira, gostava em especial daquele com recheio de goiabada

– Querido olha o que te trouxe

o apartamento em Copacabana ficava numa rua movimentadíssima mas era de fundos, ouviam-se os carros ao longe, a TV que assistíamos e ela gabando-se para mim

– Se cheguei aos setenta anos assim

fazendo-me cafuné, não sei o que pensaria depois da ponte de safena, aos oitenta não era mais a mesma, a dificuldade para levantar, tomava banho apenas com a ajuda da enfermeira

– Lave-me as costas devagar Cecília não vê que machuca

curvando-se

– Cecília um banco preciso sentar-me um pouco

hoje mais cedo passamos pela parte mais pobre do cemitério, a terra que cobria os caixões, não haviam lápides nem

Descanse em paz

nem datas, caminhávamos desviando os olhos dos urubus, a grama rala, a terra em nossos pés, os vira-latas com manchas pelo corpo, um deles seguiu-me de perto até onde minha avó seria enterrada, o alívio que foi quando avistamos os memoriais, as lápides imensas, os mausoléus, os

Descanse em paz

orações de padres e pastores pelo caminho, flores sendo jogadas dentro dos túmulos antes que se fechassem, por que flores sempre me perguntei, por que se morrerão no dia seguinte sem água, jogaram algumas também sobre o caixão da minha avó, as mãos sobre os seios enormes

– Lave-me as costas devagar Cecília

no hospital quando faleceu fui eu a escolher o caixão, aquele de madeira escura com a cruz dourada e o versículo, e claro também queremos a coroa de flores com a faixa

Com amor à nossa mãe e avó Júlia

tudo resolvido em meia hora, minha mãe incapaz de pronunciar qualquer palavra, meu irmão mais novo sentado à porta, o agente funerário perguntando-me se o enterro seria hoje mesmo, se queríamos vê-la ainda antes que fosse devidamente preparada, minha mãe hesitante

– Que mal há um minuto só

e chorando uma vez mais, afastando-se, o agente funerário poderia ser pago em cartão e a máquina ficava na portaria do hospital. Havia sido a segunda operação no coração mas a esta minha avó não resistiu, já estava enfraquecida demais, pensar que tudo isso foi hoje pela manhã, pensar que agora já está

Descanse em paz

debaixo da terra, nos últimos meses íamos com ela a qualquer pequeno evento que pudesse lhe interessar, sempre amou Clarice Lispector e quando soubemos que sairia uma nova biografia sobre a escritora levamo-la para o lançamento que teria a presença do autor, minha avó sentada na cadeira

– Estou ouvindo mas não aguento mais

tirando mais uma foto com o bisneto que não sabe o nome, falando baixinho à minha mãe

– Que dor filha que dor

e minha mãe colocando a mão em seu ombro, pedindo que se acalmasse afinal não era nada, que prestasse atenção no que o autor dizia sobre sua Clarice. Os familiares e amigos do hospital chegando hoje ao funeral, minha avó dizia a qualquer um que lhe fizesse um favor

– Obrigada passar bem

e assim livrava-se de ter que ver aquela pessoa novamente, imagino que se estivesse viva hoje diria a todos em volta de seu túmulo

– Obrigada passar bem

olhando-me de baixo pois já lhe ultrapassei a altura faz tempo

– Se cheguei

eu segundo minha avó um negro bem sucedido e bonito, visitava-a vez ou outra quando saía do trabalho no Centro de terno e gravata

– Querido olha

saímos do cemitério do Caju às seis da tarde, o padre nos acompanhou até a porta, que podíamos ligar quando quiséssemos, que contássemos com ele, tive vontade de agradecer e como minha avó

– Passar bem

mas não disse nada, minha mãe calada no carro até chegarmos em casa, não herdara os seios de minha avó mas também amava Clarice, certa vez lera-me algo como

Agradeço aos meus olhos que ainda se espantam tanto

eu que nunca terminei um livro, ficou-me a frase na cabeça, meus olhos hoje se espantam com esses vira-latas manchados, os túmulos sem lápides, espantam-me os seios fartos de minha avó desaparecendo quando os coveiros fecharam o caixão, desciam-no com cordas, a madeira resvalando no concreto que ladeava o buraco, as flores por cima, as coroas colocadas de lado, espantam-me as flores caindo dentro do buraco

– Que dor filha

não pude olhar, o agente funerário ainda vai mas essas flores

– Cecília um banco preciso sentar-me

essas flores que morrerão sem água, a veia, os elásticos apertados, as seringas, minha avó chegando com os remédios

– Anda sempre doente o menino

eu brincando no sereno junto às lápides

– Anda sempre

de paletó cinza acompanhado dos vira-latas manchados, tomando minha vitamina C como haviam-me acostumado, minha avó curaria o que fosse, poderia brincar ao sereno sem maiores preocupações que traria o própolis, traria

– Cecília um banco

o que fosse, dávamos voltas longuíssimas com o cortejo e ela

– Passar bem

para todos, as flores continuavam caindo, resvalando nas paredes de concreto do buraco e atingindo a madeira escura do caixão que agora via-se cada vez menos, espantam-me sobremaneira essas flores, flores sobre a tampa do túmulo, flores pelo chão que provavelmente teriam sobrado nos cestos dos que estavam por ali.

25/11/2009

I prêmio paulo britto de poesia e prosa

O prêmio foi promovido pela PUC-Rio mês passado, e ganhei na categoria prosa. Meu texto ("Carta para Ana"), junto com os outros vencedores, está lá no blog do Plástico Bolha: http://jornalplasticobolha.blogspot.com/2009/11/carta-para-ana-1-lugar-de-prosa.html

Este texto havia sido parcialmente publicado aqui um tempo atrás, mas modifiquei-o bastante. Confiram lá!

15/11/2009

jasmim-manga (9)

Certa vez o jasmim estava preocupado

– Minha manga querida, e Deus, onde está? Sinto-me longe
– Meu jasmim, não se preocupe, veja bem: Deus é, por exemplo, esse vento no qual você agora acha prazeroso flutuar, é a doçura que eu contenho, o cheiro com que nós perfumamos o mundo. Deus é todas as belezas juntas e mais um pouco

– Ó, acho que agora entendo: Deus tem me perseguido
– O que quer dizer, meu belo jasmim?
– Que você, minha manga montanhosa e vistosa, você é Deus me perseguindo lindamente com amor e beleza

(a manga sentiu o coração bater mais forte com aquela declaração do jasmim e ficou toda arrepiada)

– Sim, meu jasmim, e Deus é também ter novos olhos para enxergar as coisas que vemos sempre, vejo-o todos os dias aqui na Urca onde moramos
– Ah, sim, e que belo bairro escolhemos para morar, não é mesmo?
– De fato, jasmim querido

agora, já despreocupado, o jasmim agarrou-se aos sulcos da manga e pôde descansar tranquilo. Pois a verdade é que, quando se pensa muito em um único dia, a melhor coisa a fazer é parar um pouco com todos esses pensamentos e viver com o que já conseguimos entender até o momento.

10/11/2009

origamis

O que me impressiona
é essa sua capacidade
de lidar com o mundo
como se tudo se
tratasse de dobrar
e desdobrar origamis

como se as pessoas
objetos etc. fossem
os papéis coloridos
que você compra
na Liberdade

27/10/2009

jasmim-manga (8)

Um dia a manga apareceu toda verde e mais cheirosa do que nunca

– O que aconteceu com você, minha manga?
– Desamadureci
– E o que isto quer dizer?
– Que sinto-me mais nova, meu jasmim, como uma criança
– Sim, e conseguiu ficar mais bonita ainda, como isso é possível?
– Talvez seja o frescor da juventude

e o jasmim começou a lembrar que, quando era mais novo, seus olhos se espantavam muito com as coisas que via ao redor. Mas não era medo: espanto quer dizer assustar-se sem ter medo, com um quê de alegria por não conhecer bem aquilo que se sente ou se vê. Quem se espanta fica feliz de não saber tudo e de estar sempre aprendendo. E concluiu que, embora não estivesse verde, estava começando a desamadurecer também, junto com sua manga, porque estava enxergando muitas novas belezas em volta de si.