23/11/2009

violeta (2)

Quando ingressou na Escola de Belas Artes, Miguel Angel provavelmente não sabia o que lhe esperava, o golpe militar, a vida de revolucionário

– Con el arte solamente no se puede

tornou-se chofer da embaixada da Finlândia no Chile e extraditava uruguaios com a ajuda da namorada finlandesa, meu pai

– Sempre tive vergonha de ter estudado no colégio militar, meu primo que abriu-me os olhos

chorando ao contar-me, disse que não tivesse vergonha, que por vezes não vemos mesmo

– Con el arte solamente

Miguel Angel refugiado na Argentina fundando o Partido por la Victoria del Pueblo, a prisão. Colocaram-no também no segundo voo da morte, abriu-se a rampa de lançamento do avião e logo todos os presos políticos estavam no ar girando, o que ele pensaria naquele momento

– Con el arte

pensaria na Violeta, na casa do Prado, na filha

– Sempre tive vergonha

descendo em queda livre, meu pai abrindo os armários com os álbuns de fotos, hasteando a bandeira no colégio

– Meu primo que abriu-me os olhos

no Rio ligando para a mãe, estava tudo bem e ela em breve poderia vir visitá-lo, a passagem de ônibus era barata, era atravessar o litoral do Brasil de preferência no inverno por conta do calor, Miguel Angel girava no ar, o avião distante, a Violeta telefonando

– Chiche tu primo desaparició

percorrendo o Chile e a Argentina atrás do filho, prestes a embarcar agora para a Bolívia

– Viola no te vayas no ves que Miguel Angel ya no está

minha avó desistindo de convencê-la, servindo-lhe mais leite no chá

– Chiche tu primo

caindo numa velocidade cada vez maior

– Chiche

eu no quintal da casa do Prado com a cachorrinha Blacky, a sombra cheia de bolotas que a parreira fazia, a Violeta

– Miguelito no tengas miedo ella no muerde

falava um espanhol rápido e embolado mas isso pude entender

– Miguelito no tengas miedo

o nariz curvo que lhe caía perfeitamente, as cócegas, eu pedindo que parasse

– Miguelito

o armário cheio de tralhas do meu avô, costumava fabricar-me espadas e escudos feitos de sucata

– Touché

agachando-se para lutarmos de igual para igual, jogando-se no chão, estava derrotado e eu era mesmo o mais bravo cavaleiro que já se vira naquele quintal, meu avô Totito jogando cartas, a venda da casa, as bengalas, minha avó

– Viola no te vayas

mudaram-se para Pocitos, o asilo da Violeta era perto, ela como sempre tricotando no canto da sala, o alzheimer

– ¿Telma donde está mi hijo?

servindo-lhe mais leite no chá

– Viola no

a queda livre, o mar cada vez mais perto

– Touché

meses depois encontraram alguns corpos na baía de Cabo Polónio mas Miguel Angel continuou desaparecido, eu voltando ao Uruguai e a Violeta no aeroporto

– Miguelito

feliz por ver-nos, fazendo-me cócegas

– Miguelito

vi uma foto dela com vinte anos debruçada num parapeito, botas até o joelho, teria andado de cavalo naquele mesmo dia, teria levantado o rosto e o nariz para sentir o vento forte de Lavalleja, meu pai fechando o álbum, guardando-o de volta no armário

– Sempre tive

o mar de Montevideo, não entendo porque as pessoas não mergulham, ficam apenas no calçadão, talvez porque tenham visto os corpos chegando à beira da praia em Cabo Polónio, talvez por causa da água marrom, quando vou à rambla e vejo a areia vazia dá-me uma pena, o mar sem ninguém, as pessoas na orla olhando em direção ao horizonte como se vissem algo, como se as ondas fossem lhes trazer alguém que não veem há muito tempo, do outro lado está a Argentina e disseram-me que agora os barcos para lá saem de uma em uma hora.

15/11/2009

jasmim-manga (9)

Certa vez o jasmim estava preocupado

– Minha manga querida, e Deus, onde está? Sinto-me longe
– Meu jasmim, não se preocupe, veja bem: Deus é, por exemplo, esse vento no qual você agora acha prazeroso flutuar, é a doçura que eu contenho, o cheiro com que nós perfumamos o mundo. Deus é todas as belezas juntas e mais um pouco

– Ó, acho que agora entendo: Deus tem me perseguido
– O que quer dizer, meu belo jasmim?
– Que você, minha manga montanhosa e vistosa, você é Deus me perseguindo lindamente com amor e beleza

(a manga sentiu o coração bater mais forte com aquela declaração do jasmim e ficou toda arrepiada)

– Sim, meu jasmim, e Deus é também ter novos olhos para enxergar as coisas que vemos sempre, vejo-o todos os dias aqui na Urca onde moramos
– Ah, sim, e que belo bairro escolhemos para morar, não é mesmo?
– De fato, jasmim querido

agora, já despreocupado, o jasmim agarrou-se aos sulcos da manga e pôde descansar tranquilo. Pois a verdade é que, quando se pensa muito em um único dia, a melhor coisa a fazer é parar um pouco com todos esses pensamentos e viver com o que já conseguimos entender até o momento.

10/11/2009

origamis

O que me impressiona
é essa sua capacidade
de lidar com o mundo
como se tudo se
tratasse de dobrar
e desdobrar origamis

como se as pessoas
objetos etc. fossem
os papéis coloridos
que você compra
na Liberdade

31/10/2009

violeta

para meu pai


Ao nascer deram-me um nome – Miguel Angel havia sido um dos primos do meu pai, tupamaro que desapareceu na ditadura uruguaia, sendo meu batismo assim uma homenagem. Por muitos anos ignorei a história da minha família, os vinte e dois anos que meu pai passara em Montevideo antes de mudar-se para o Rio, Miguel Angel etc. Aprendi sozinho o espanhol que nunca fizeram questão de ensinar-me.

Gosto de pensar que Miguel Angel não tinha medo: olhava-se no espelho todos os dias pela manhã, pegava as armas, fazia duas ou três ligações-código

– Ahora el pájaro ya vuela sólo

e tomava seu chimarrão à tira colo, dizia adeus à filha Ximena que confiava a meu pai para dela tomar conta e ia encontrar-se com seus companheiros de luta. Violeta, a mãe de Miguel Angel, foi presa por conta das atividades ilegais do filho, sua cabeça nos galões d’água, os oficiais provocando ao despi-la

– Miren que no está tan vieja así

apertando-lhe, dizendo-lhe que o filho havia sido capturado e estavam a torturá-lo até a morte mas ele não contava, então era melhor que ela contasse e assim os sofrimentos do filho teriam um fim. Até que chegou à prisão uma companheira de Miguel Angel e logo combinaram que, caso a moça conseguisse sair antes dela, tão logo encontrasse alguém da família diria que escrevesse cartas relatando-lhe, em código combinado, o estado de Miguel Angel. Deu de cara com meu pai no segundo dia depois de ter saído do cativeiro

– Ay no puedo creer que te encontré, escuchá vamos tomar un café que tengo algo a decirte

e explicou que, já que a Violeta tricotava incessantemente, combinaram que agulhas indicariam que Miguel Angel estava bem e novelos de lã que ele havia conseguido sair do país. Meu pai escreveu à tia que seu neto Pablito havia nascido e que estavam precisando de roupas, por isso enviava a lã e as agulhas

– Ahora el pájaro ya vuela

e a Violeta pulava de alegria, os guardas sem entender relendo uma duas três vezes a carta sem achar nenhum indício de coisa alguma, a Violeta dançava nua pela prisão

– Miren que no está tan vieja

meu pai aluno de colégio militar percorrendo os quartéis, perguntando de uma senhora que se chamava Violeta, Miguel Angel havia saído do país, o novelo de lã, o Chile ainda sem ditadura

– Ay no puedo creer que te encontré

a Violeta de volta em casa, fazendo casacos, o Chile agora sob regime militar, a ausência de notícias. Penso que a esta altura Miguel Angel já havia sido capturado, os galões d’água, o silêncio.

Fui à antiga casa na qual minha avó e a Violeta moraram grande parte da vida, no Prado, onde eu comia uvas da parreira que ficava sobre a pérgola do jardim dos fundos, numa Montevideo cinza e longe do centro. Prefiro Montevideo a Montevidéu como se deveria escrever aqui, Miguel Angel queria sua Montevideo sem milicos, minha avó nervosa com mais uma inspeção da polícia do governo em sua casa

– Mi hijo hasta cuando eso va durar, por favor no te metas con estas cosas también como hizo tu primo

meu pai tratando de acalmá-la, dizendo que ele não sabia de nada, que não pretendia se envolver, a mãe da minha irmã grávida, a mudança pro Rio

– Ahora el pájaro

minha avó consolando a irmã, que iam encontrá-lo tão logo acabasse aquele pesadelo militar, que ele estaria no Chile ou quem sabe na Bolívia, Miguel Angel sempre fora esperto embora um pouco desbocado, meu novo casaco de lã

– Filho quando vim do Uruguai já não tínhamos mais notícias do meu primo

eu ouvia com toda atenção

– Ay no puedo creer

o alzheimer da Violeta, as visitas ao asilo, a Ximena ganhando a pensão dos desaparecidos, o chá da tarde, minha avó

– ¿Viola te acordás de cuando Miguel Angel era chiquito y decía que sería capitán de un navío?

minha tia-avó concordando com a cabeça, colocando leite no chá

– Filho quando vim do Uruguai já não

a casa do Prado, a parreira do quintal, as uvas doces, o alzheimer

– Viola te acordás de cuando Miguel Angel era chiquito

meu batismo na igreja de São Conrado, os medos, o calor do Rio de Janeiro, cresci ouvindo esporadicamente o espanhol que me esforçava em aprender

– Filho

no avião de volta ao Rio o jantar era gnocchi com molho de tomate, nada comparado ao que a minha avó fazia

– Viola te acordás de cuando Miguel Angel

pousei no Galeão e chamei um táxi, o chimarrão do taxista gaúcho

– Veio da onde patrão?

conhecia o Uruguai e a Argentina também, claro, era inverno no Rio de Janeiro, fazia um frio incomum e meu casaco de lã estava na mala do carro.

27/10/2009

jasmim-manga (8)

Um dia a manga apareceu toda verde e mais cheirosa do que nunca

– O que aconteceu com você, minha manga?
– Desamadureci
– E o que isto quer dizer?
– Que sinto-me mais nova, meu jasmim, como uma criança
– Sim, e conseguiu ficar mais bonita ainda, como isso é possível?
– Talvez seja o frescor da juventude

e o jasmim começou a lembrar que, quando era mais novo, seus olhos se espantavam muito com as coisas que via ao redor. Mas não era medo: espanto quer dizer assustar-se sem ter medo, com um quê de alegria por não conhecer bem aquilo que se sente ou se vê. Quem se espanta fica feliz de não saber tudo e de estar sempre aprendendo. E concluiu que, embora não estivesse verde, estava começando a desamadurecer também, junto com sua manga, porque estava enxergando muitas novas belezas em volta de si.

20/10/2009

jasmim-manga (7)

– Querida manga por favor me ensine a fotografar

pediu o jasmim quando descobriu que a manga era também exímia fotógrafa

– É assim jasmim feche os olhos e depois abra-os para capturar os instantes que estão sempre passando, os instantes em movimento
– Ah sim o que as pessoas chamam de passado
– Nada disso, jasmim querido, o presente

e a manga explicou que, na verdade, vivemos em um eterno presente que vai se sucedendo, presentes atrás de presentes, e a fotografia seria então enquadrar um desses presentes que passa por nós naquela hora da foto, explicou que o passado é um presente que já passou mas que se torna presente de novo quando lembramos, que o futuro também se torna presente quando esperamos ansiosamente mas sem preocupações por ele.

– Compreendo, mas e a câmera?

(logo se vê que o jasmim entendia muito rápido as coisas, algumas pessoas talvez precisassem de dias para compreender isso que a manga disse, outras precisariam fazer um doutorado o que significa estudar muito mais do que você estudou em toda sua vida)

– Segure ela assim ó, as melhores fotos são as tiradas na diagonal
– Sempre achei que as fotos deviam ser retas
– Esqueça isso jasmim, nada nesse mundo é reto, os maiores cientistas já afirmaram que o nosso próprio planeta é redondo e está no meio de um universo sem forma definida

(o jasmim estava pasmo de ver quanto conhecimento sua manga possuía, e ouvia tudo com enorme atenção e deleite)

– Pois bem outra coisa que você precisa saber é acerca das cores das fotos: podem ser em preto e branco ou coloridas
– Ó meu Deus e agora como saberei quando usar cada tipo?
– Isso depende do que você quer ver e mostrar com a foto
– Ah minha manga vistosa se eu te fotografasse nunca seria em preto e branco, pois uma das coisas que mais admiro em você são essas cores maravilhosas

(e aqui a manga de novo começou a passar de amarelo a vermelho porque sempre se envergonhava quando o jasmim a elogiava assim). O jasmim então começou a tirar fotos, mas uma pergunta crescia dentro de si, até que não aguentou mais e perguntou

– Querida manga penso que quando tiro fotos de coisas belas como você estou lhes roubando a beleza e tenho medo de que elas fiquem menos belas depois da foto
– Isso nunca acontecerá jasmim, mas o contrário: as fotos acrescentam beleza às coisas que são belas por natureza e, às vezes, mostram a beleza que está escondida em coisas nas quais normalmente não a enxergamos

e desta forma o jasmim perdeu o medo e saiu fotografando mundo a fora, mundo a dentro, encontrando e se espantando com novas belezas que nunca havia visto.

10/10/2009

fotografia

para Carol


Escrita de luz, a
foto-
grafia.
Escreve-se com a
luz
e você ainda diz que
não lê.

Ler o mundo,
ler os mundos
a partir de
suas luzes,
ausências –
silêncios.

Ler,

mesmo quando não há
lentes;

ler,

mesmo quando luz e trevas
se juntam;

ler,

mesmo que as lentes
sejam os seus próprios
olhos.

Paramos no cruzamento –
seu casaco vermelho,
o cachecol nos cabelos,
você olhava
lenta,
diversa.
Imersa
nas cores do mundo.

Shall we cross
o mundo,
as cidades e
os sentidos –

cidade-texto
cidade-luz
cidade-cor
cidade
e seus olhos cheios de
cimento,
lágrimas,
ternura.

video

08/10/2009

a alma e a matéria

Divulgando: publicaram um pequeno texto meu lá no site da editora e revista Ultimato, na seção "Opinião".

Pra quem não conhece, a Ultimato é, na minha opinião, uma das revistas cristãs mais sérias e agora está querendo ativar o seu espaço online. Tem uma chamada pro texto na primeira página do site, mas podem acessá-lo diretamente aqui.

Este texto é o desenvolvimento de algo que comecei um tempo atrás aqui no blog.

Confiram!

01/10/2009

jasmim-manga (6)

O jasmim, do alto de sua jasmineza, era muito suscetível a qualquer tipo de vento. Quando ainda pertencia ao jasmineiro, o vento batia levando a planta para lá e para cá, mas ela sempre voltava ao mesmo lugar instantes depois. Agora, independente como ele estava, era diferente: ao menor sinal de qualquer vento, era levado, e sabe lá Deus onde ia parar. Foi o vento que o levou pela primeira vez, naquela gloriosa tarde, ao centro de sua manga querida. Estando lá, ele não precisava se preocupar com as rajadas ventoríficas: aquecia-se e se prendia no interior da manga que era quente e cheio de sulcos onde podia prender-se. Quando, no entanto, estava longe dela, um ou outro vento forte impeliam-no para longe

– Meu Deus onde foi parar o jasmim!

dizia quem estivesse por perto

– Isso sempre acontece daqui a pouco ele volta

e ia lá o jasmim traçando caminhos sempre diferentes, sempre de volta ao lugar de onde havia sido levado. Não à toa ficava tão feliz quando se chegava à manga: não tinha mais que se preocupar com a imprevisibilidade dos ventos. Imprevisibilidade era uma palavra que o jasmim não conhecia, porque jasmins se dão melhor com palavras pequenas como sol, folha... no máximo algo como quadrado; telefone, por exemplo, já complicava.

Mas falemos dos ventos e do jasmim. Com o tempo, o jasmim aprendeu a se divertir com aquela imprevisibilidade dos ventos, ou seja, o fato de nunca se saber de onde eles vêm e para onde eles vão. Percebeu que isso poderia ser ótimo: ir flutuando ao sabor do vento, deslizando suave pelos espaços, sendo carregado. Isso o ajudava a fazer passar o tempo quando estivesse longe de sua bela manga. O jasmim agora assumia a vocação para a leveza que sempre teve. Divertia-se também, uma vez que pousava nos lugares aonde o vento lhe levava, se perdendo ao tentar encontrar o caminho de volta.

A manga, por sua vez, achou ótimo que o jasmim agora fosse levemente leve como sempre pôde ser mas se recusava. E aplaudia toda vez que, por algum acaso, o visse voando por aí.

22/09/2009

jasmim-manga (5)

A manga era muito inteligente. Sabia falar várias línguas, inclusive japonês. Por causa disso, tinha uma outra mania que o jasmim achava curiosíssima: às vezes, em uma frase só, misturava palavras de três ou quatro línguas diferentes. Como o jasmim só estava acostumado com as línguas latinas, ela evitava colocar palavras em japonês ou russo para não confudi-lo. Se em uma carta ela achasse mais bonito mandar beijos de manga em italiano, escreveria

Baci

ao que o jasmim agradecia

Grazie, bella!

(pois essas eram duas das poucas palavras que ele sabia em italiano, embora achasse essa a língua mais bonita de se pronunciar).

Mas eu falava que a manga costumava misturar línguas em uma frase só. Isso se dava porque ela achava que as frases soavam melhor ou eram faladas de um jeito mais significativo em certas línguas. Por exemplo, ela amava a palavra “saudade” do bom e velho português, mas vez ou outra dizia para o jasmim

Tu me manques, meu belo jasmim

pois achava belíssima essa expressão francesa também, que para ela lembrava “mancar”, “faltar um pedaço”. Assim, conseguia dizer que quando estava longe do jasmim era como se lhe faltasse uma parte de si.

O jasmim no início ficava confuso com essa revolução nas línguas feita pela manga, mas depois começou a se acostumar. Também passou a estudar francês, já que era uma das línguas prediletas da manga. O inglês ela também usava bastante: quando queria ser elegante ao extremo, quando lembrava de uma expressão desses filmes hollywoodianos ou quando queria ser muito íntima e informal, falando de pertinho

You know what? I’m so glad I found you, jasmim querido

e o jasmim se derretia todo com aquela declaração da manga, estava também tão feliz de tê-la encontrado, de terem misturado seus cheiros... Ele por sua vez falava espanhol, uma das poucas línguas que a manga não falava tão bem, embora compreendesse algo. O jasmim achava ótimo pois o espanhol tinha diversas palavras para dizer "bonita", "linda": guapa, hermosa, bella, encantadora, graciosa, preciosa, além de linda e bonita, iguais ao português. Todas essas ele usava pois temia que ela se cansasse de ouvi-lo elogiando-a somente com os dois adjetivos do português. E a manga abria-se em sorrisos ao ouvi-lo falando assim ao pé do ouvido

– Ah meu jasmim quem dera eu saber também o espanhol
– Eu te ensinarei minha manga é tão fácil, em troca você me ensina o italiano pois acho tão deleitável
– Queria saber todas as línguas do mundo para ter a possibilidade de escoher as melhores expressões, te ensinaria todas jasmim certamente
– E eu ouviria tudo cheio das atenções pois quando você fala sinto que

(a manga foi ficando vermelha de vergonha)

– Sinto que são palavras verdadeiras, sinto-me um privilegiado pois você mais silencia e mais ri do que fala
– Ó meu jasmim as palavras são para mim preciosíssimas não quero gastá-las à toa

e com isso o jasmim finalmente entendera os silêncios da manga. Agora, quando a via calada, abria um sorriso enorme, compreendendo que ela estava preparando belíssimas palavras que viriam em algum momento futuro.

09/09/2009

jasmim-manga (4)

A manga agora viajava sempre, virara presidenta da associação de mangas e por isso vivia a visitar outros estados e até o exterior do país. Nem sempre o jasmim podia acompanhá-la. Toda vez que o jasmim e a manga se reencontravam depois dessas longas viagens era como se fosse a primeira vez, a manga envergonhada pelo olhar amoroso do jasmim, ele se perguntando o porquê de tanta timidez. Chegou à conclusão que a manga era tão incrível e graciosa que devia sentir mesmo vergonha por ser tão grandiosamente incrível e graciosa assim – num mundo cheio de cores pretas e brancas e de paisagens planas, ela era toda colorida, montanhosa, cheia das formas belas.

Outra coisa que o jasmim sempre se esquecia e achava graça era uma mania muito peculiar da manga. Por vezes, ela ao invés de respirar dava risada. Trocava o respiro inspirar expirar pelo riso. Era uma risada rápida e curta

– Hihi

que nada no mundo explicava. A manga era toda sorrisos. No começo o jasmim achava esquisito mas depois achou graça de ter pra si uma manga toda risonha assim e sorria toda vez que a manga esquecia de respirar e dava risada daquele jeito.

Tendo se reencontrado e dado risada à vontade, o jasmim disse à manga

– Minha belíssima manga há ainda um bairro no Rio que você não conhece
– Mas como é possível meu belo jasmim, já andamos a cidade inteira!
– Há um bairro de nome Urca que dizem que quem entra lá nunca mais quer sair!
– Jura?
– Sim eu mesmo fui certa vez e foi só depois de dois dias que consegui sair de lá, precisando ser escoltado pelo meu jasmineiro inteiro
– Ó jasmim mas e se isso for verdade que fazemos? Ficaremos lá para sempre?

ao que o jasmim não respondeu, deixando a pergunta em aberto, mostrando à manga qual ônibus deveriam pegar

(era um microônibus e portanto o cheiro de jasmim-manga se espalhou rapidamente, o motorista assobiava de felicidade)

e no ponto final a manga não conseguia descer do ônibus pois estava insegura que só. Finalmente venceu a timidez

– Jasmim não vai responder à pergunta que fiz?
– Qual?
– E se for verdade e nunca mais quisermos sair daqui? Ficaremos aqui para sempre? Preciso fazer minhas viagens você sabe
– Querida manga viajar não é apenas contemplar novas paisagens mas ter novos olhos para olhar aquilo que já foi visto. Muitos enxergam, mas poucos veem de fato

(a manga puxou seu caderninho para anotar pois sentiu que aquilo que ele havia dito era de alta importância para as sociedades futuras)

– Está certo vamos então

e desceram do ônibus dando de cara com a vista deslumbrante da Baía de Guanabara, as árvores, o forte, a sombra e a mureta onde podiam se debruçar e até pedir comida no bar do outro lado da rua. Nunca mais queriam sair dali.

– Seremos eu e você aqui jasmim todos os dias acordaremos olhando para essa vista maravilhosa
– Ó sim minha manga e que bela vista só não mais bela que a que tenho quando estamos perto um do outro, já lhe disse isso não?
– Sim mas nunca me canso de ouvir

e também nunca se cansavam de ver aquela vista, a cada dia encontravam algo novo, todas as manhãs trocavam seus olhos colocando uns novinhos em folha com os quais saiam pelo seu mundo da Urca, descobrindo, redescobrindo, ressignificando todas as coisas ao seu redor.

04/09/2009

Lina por escrito

Cosac Naify, revista Noz e CAU/PUC-Rio convidam para o lançamento do livro
Lina por escrito
uma coletânea de textos da arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. O lançamento será seguido de debate entre Maria Cristina Cabral (FAU/UFRJ), João Masao Kamita (PUC-Rio) e Silvana Rubino (Unicamp, organizadora da publicação), com mediação de Ana Luiza Nobre (PUC-Rio).

terça-feira, 8 de setembro, às 18h
auditório Padre Anchieta – PUC-Rio

Mais sobre o livro: www.cosacnaify.com.br/loja/detalhes.asp?codigo_produto=1246&language=pt&showPromo=True
Leia a resenha escrita por Maria Cristina Cabral especialmente pra revista Noz: www.revistanoz.com/?p=134

Apareçam!

01/09/2009

jasmim-manga (3)

A manga foi convidada para dar uma palestra na segunda conferência de mangas brasileiras que iria acontecer no mesmo lugar que a primeira. O jasmim não poderia ir junto. A cidade do Rio de Janeiro já estava tão acostumada com o cheiro de jasmim-manga que começaram as reclamações e especulações

– Não pode ser meu Deus a cidade vai voltar a cheirar mal
– Impossível
– Acho que é mentira da televisão

mas a manga teve mesmo que ir. O jasmim quando ficava com saudades dava pra cantar alto pelas ruas e todos nas calçadas ouviam

– E agora que faço eu da vida sem você, você não me ensinou a te esquecer

essa e muitas outras canções que o jasmim lembrava quando a imagem da sua manga e o cheiro deles juntos lhe vinha à mente. O jasmim aproveitou para ir visitar o seu jasmineiro em Santa Teresa onde havia conhecido a manga. Chegando lá, receberam-no com confetes e lágrimas de jasmim

– Ó nosso amigo quanto tempo!

(as outras pétalas falavam juntas em coro)

– É verdade
– Mas por que está tão triste e onde está a manga que você conheceu aqui?
– Viajou
– Pra onde?
– Foi convidada a falar em um congresso de mangas numa cidade onde havia um rio fedorento mas que tornou-se cheiroso depois que estivemos lá
– Meu amigo as viagens servem para sentir sentir saudades e logo depois matá-las

e o jasmim derramou lágrimas de alegria porque sabia que aquilo era verdade, sabia que de algum jeito as viagens por vir e as que já se passaram formariam juntas uma rede de vários caminhos, várias idas e voltas, onde eles se encontrariam e depois se separariam, sentiriam saudades, matariam essas saudades, até que pudessem viajar juntos, para depois se separarem e se reencontrarem mais uma, duas, três, quinhentas vezes. E sabia que na verdade viajar não era somente partir de um lugar para outro mas simplesmente pegarem a estrada e irem sempre em frente, sabendo que o caminho era o que mais importava, mais que a chegada, que tinham muitos rios para perfumar, que muitos lugares ainda precisavam sentir o cheiro deles.

27/08/2009

jasmim-manga (2)

O jasmim e a manga agora cruzaram juntos a ponte aérea e deram de cara com o rio Tietê cheio das sujeiras e dos fedores que só um rio que passa no meio de uma cidade que nem São Paulo pode ter. Disseram juntos

– Hum que cheiro ruim

(eles costumavam falar assim dobrado repetido)

e resolveram perfumar o rio inteiro. Passearam então de uma margem à outra, descascando tangerinas antigas que logo ficaram cheirosas, fazendo esculturas de lixo

– Isso jasmim pra ficar igual àquelas do Vik Muniz sabe

rebrilhando botas e sapatos usados que ficaram novos e cheirando a novidade. Mas o cheiro maior, o que se sobrepunha a tudo, era o cheiro de jasmim-manga. Os peixes começaram a se sacudir de novo

(estavam paralisados haja vista aquela sujeira toda no rio)

– Estou me sentindo vivo

diziam uns aos outros

– Nunca se sentiu cheiro tão bom aqui por essas bandas

e o jasmim e a manga ficaram muito contentes com aquela festança aquática de peixes que nunca haviam visto antes.

– Está vendo jasmim essa alegria toda acho que nós a trouxemos
– Minha manga querida e vistosa tenho certeza disso! Acho que precisamos celebrar ainda mais

pegaram então o avião de volta e todos os passageiros sentiram aquele cheiro que já estava virando característico. Quando chegaram, planejaram levar um pouco do mar do Rio de Janeiro especialmente aquele ali da pontinha do Arpoador pra capital paulista, que agora amavam como se fosse sua própria cidade, pois o jasmim havia conhecido lindos jasmineiros e a manga fora a um encontro sobre a nova espécie de mangas que havia surgido em Itaguera

(esta sendo uma cidade longe longínqua na Bolívia quase na fronteira com o Brasil)

e que diziam ser mais suculenta que a espécie brasileira, mas a manga descobriu que não era nada disso e que, na verdade, todas as mangas estavam mais unidas do que nunca.

12/08/2009

carta para ana (6)

Jacaré dos Homens fica tão distante do rio, Ana, que tudo o que me resta são lembranças esfaceladas da lama em que ele se tornou, o soco do Joel naquele dia fatídico, a ausência de palavras. Nossa vida é feita de memórias? Hoje eu nado nelas como se nadasse no São Francisco e me lembrasse constantemente do seu vestido branco, do colar de conchas que lhe dei aquela vez. Talvez a memória seja um colar de conchas ou um rio mergulhável mas cheio de lama. Deus se lembrará, Ana?

11/08/2009

carta para ana (5)

Ana, minha vida é feita de silêncios, um após o outro. No trem nunca puxo conversa e se alguém puxa não dou bola, fico calada

– Próxima estação Vila Madalena

e me levanto sem muita esperança, mais um trabalho, os Jardins, meu batom vermelho que comprei ontem na estação

– Cinco reais dona leva agora se não alguém leva antes da senhora

Ana, você recebeu minha última carta? Precisava tanto ouvir o que você acha daquilo tudo, do meu namorado que se afasta, ontem comprei o batom vermelho e ele nem notou, quando perguntei ele

– Como vou notar Vitória você tem cada coisa que diferença faz se eu sei ou não a cor do seu batom?

e como sempre me calei, queria que soubesse interpretar os meu silêncios mas ele não se importa, liga a televisão para assistir aquele programa cheio de mulheres com bundas enormes, não sei como não se dá conta que é tudo mentira, o que é ser mulher pra você, Ana?, é usar batom, é tomar pílula atrás de pílula, é por acaso sentir os seios cairem sem ter quem os segure, o sutiã velho, a maquiagem borrada pelas lágrimas, sentir-se delicada mas sozinha?

O trem vira metrô, desembarco em mais uma estação, quantas foram as estações na minha vida?, quantas estações até a vida de alguém finalmente conseguir ir para frente, quantas estações até o céu e quem estará me esperando lá? Por quanto tempo continuarei em silêncio nessa vida, recusando as balas, os amendoins, as conversas. Já não sei, e estou bem assim. O metrô vira trem e chego finalmente em casa, foi mais um dia que passou, Ana, mais um dia e seus vazios.

08/08/2009

carta para ana (4)

Ontem fui até o rio, Ana, ou o que costumava ser o rio, e atirei-me à lama que substituiu há algum tempo a água que lá pousava. Eu todo sujo, os meninos correndo gritando

– Tia tem um maluco lá no rio

e eu não sei mais se sou louco ou se sou normal, a mãe diz que sou o preferido, que só eu mesmo pra ficar ao lado dela, cega, as pessoas chegando até nossa casa pra vê-la

– Dona Neusa está tudo bem com o Joel? Ontem ele ficou rodando deitado no rio parecia um maluco

minha mãe sentando

– Não mentira não pode ser o Joel

eu me aproximando dela, perguntando o que havia acontecido, explicando que esse povo é que é doido e fica inventando história pra perturbar a gente, minha mãe me pediu que fosse à feira e comprasse dois quilos de batatas e alguns jilós, comprei meio quilo e um jiló mas disse à mãe que fiz tudo como ela pedira, o dinheiro acabou mais uma vez, Ana, a Vitória ingrata nem pra aparecer por aqui, nem pra mandar um dinheirinho, já deve estar rica lá em São Paulo, o Carlos nem quero pensar, tomara que nunca consiga ter aquele filho, só de pensar no que ele fez com você, Ana, coisa de animal, nunca vou perdoá-lo mesmo que você volte aqui me pedindo de novo, me dizendo que você consentiu, já disse e não sou homem de retirar minhas palavras, você

– Joel olha ontem eu e o Carlos

nem deixei você continuar, fui revoltado ao encontro do idiota que não entendeu nada quando recebeu um soco no meio do rosto e nunca mais lhe dirigi a palavra, Ana, nada de nada, nós dois na mesma casa se esbarrando, o Carlos tentando falar alguma coisa, eu mudo passando por ele sem nem olhar nos olhos

– Joel olha ontem

sem pudor, sem vergonha, hoje eu penso como você pôde, Ana?, depois de tudo aquilo, que nunca nos separaríamos, seu pai

– Joel você é um filho pra mim

queria mesmo ser, queria ser filho dele, queria ser seu, eu dormia pensando em você, no seu biquini amarelo, pensava em nós dois em Pão-de-Açúcar, nosso casamento na Igreja Batista seria bonito e teria flores por todo lado, as damas de honra poderiam ser as suas sobrinhas, o arroz, eu olhando você entrar deslumbrante, o pessoal do coral cantando e minha mãe provavelmente não iria resistir, eu dentro de você, nossos filhos, tudo isso se perdeu, Ana, se perdeu quando você

– Joel olha

se foi, não te vi mais, seus olhos que me faziam lembrar a cor do São Francisco, a palma da sua mão branca, sua pele mulata que dava até medo de abraçar. Hoje tenho uma mãe cega, uma TV que não funciona, um radinho sem pilhas, aluguéis atrasados e mais o que, Ana?, mais o que se quando você se foi levou consigo metade de mim, a carroça e os burros, fiquei sentado no meio fio durante cinco dias, não entrava em casa, não respondia quando me falavam, no quarto dia quando começou a chover fiquei imóvel, estático, eu todo molhado sentado no meio fio, minha camisa verde clara se transformando em verde escura, a chuva que tantos esperavam mas eu não, o que costumava ser o rio agora com um pouco mais de água, o que lembrava-me de tudo aquilo mais uma vez, me afastei, quis ir pra qualquer lugar menos pro São Francisco

– Joel

não quis ouvir

– Jo

e hoje te escrevo porque preciso te ouvir. Pergunto-me se algum dia terei um destinatário, se terei seu endereço, Ana, e finalmente não rasgarei minhas cartas e minhas memórias dois dias depois.

06/08/2009

entre van gogh

"Chegar enfim
à superficie das coisas,
de mãos dadas com o ar.

Do fundo subo até a minha pele
– deveria dizer até os meus olhos
mas os meus olhos são feitos de pele –
para olhar os girassóis,
as caras de perdão, os céus
verdes, essas planícies,
explosão de amarelo e um
tênue gosto de suor em rostos
desfigurados por terem nascido.

Olhos que funcionam como guias
para ver, em detalhe,
aquilo que é verbo, figura,
cor esquecida."

--
PUIG, Salvador. “Entre Van Gogh” in: Escritorio. Montevidéu: Linardi y Risso, 2006, p. 35. Tradução minha.

Salvador Puig é um importante poeta uruguaio. Nascido em 1939, ainda está escrevendo. Publicou alguns de seus poemas em antologias coletivas no Brasil, mas nenhum livro seu foi traduzido e publicado aqui.
Escritorio é seu último livro. Abaixo, o texto original.


"Llegar por fin
a la superficie de las cosas,
de la mano del aire.

De abajo subo hasta mi piel
– debería decir hasta mis ojos
pero mis ojos son de piel –
para mirar los girasoles,
las caras de perdón, los cielos
verdes, esas planicies,
estallido de amarillo y
tenue sabor a olor en rostros
desfigurados por haber nacido.

Ojos que actúan como guías
para ver en detalles
lo que es el verbo, la figura,
el color olvidado."

03/08/2009

jasmim-manga (1)

Entretanto fazia sol, havia todo um silêncio preambular, as árvores sacudiam, o bonde passava e a tarde entrava macia por entre as madeiras da pérgola. De cima o jasmim avistou a manga vistosa

– Posso cair sobre você? Está tão bonita

pensava em como faria aquilo, ele uma pétala de jasmim cair sobre uma manga imensa, inesgotável, profunda, cheirosa, cheia de sulcos, a manga

– Pode, gosto do teu cheiro, quando você vem?

tardava porque procurava o melhor ângulo, esperando pelo vento certo que o faria cair bem no meio da manga partida em dois, mirava-a mais uma vez

– Já vou já vou me espere por favor

até que deixou-se cair ficando longe das outras pétalas, e num movimento curvo atingiu preciso o centro da manga aberta

– Este é o seu melhor ângulo já te disseram? Você é mais bonita vista de perto, tão perto quanto estou agora, e é tão calorosa

a manga agradecia silenciosa como sempre e depois disse ao jasmim

– Você parece um desenho do Matisse sabe aqueles coloridos que ele recortava

e enquanto isso seus odores se misturavam, ela gostava do jasmim e de como ele se encaixava nela. Alguém que estava por perto e não entendia que manga e jasmim podiam se juntar daquele jeito gritou

– Eca meleca!

e outro alguém que estava ali fungou e disse

– Que cheiro de jasmim-manga

e não o compreenderam nem seus amigos nem o resto do bairro de Santa Teresa naquela primeira tarde de primavera, o sol no auge de seu calor, a vista para o Outeiro da Glória, o bonde, as árvores sacudidas e o jasmineiro na pérgola agora sem uma de suas pétalas.

28/07/2009

estado de caravana

"A vida seria um grande gole amargo, não fosse a escrita. Eu escrevo e reescrevo. Vou fazendo escalas entre rascunhos de rascunhos. As teclas de deletar, cortar e colar trabalham mais que as vinte e tantas do alfabeto.

Escrevo 'faço escalas' mas penso 'faço minha casa'. Não sei por que escrevo diferente do que penso. Talvez porque ao escrever eu vá corrigindo o que penso e, dessa maneira, vou fazendo um espaço mais habitável, onde os pensamentos possam se relacionar. Se sacrifico um pensamento isolado, se não o escrevo, é para com isso dar lugar a mais de um. A uma quantidade maior de pensamentos que possam conviver como pessoas que precisam umas das outras. Ou que se juntam para passar a noite. Um pensamento imóvel como um objeto – carretel, ladrilho, botão, casca de ovo – que serve para algo sim, mas não para continuar escrevendo. Somente se ele se intercala com outros pensamentos é que serve para proteger.

As páginas, os rascunhos, protegem da vida. Que é imprevisível.

Vive-se, no que diz respeito ao ofício de escrever, em estado de caravana. Vive-se e é preciso justificar essa oportunidade única. No Uruguai, uma mulher que escreve enquanto passam os filhos, a ditadura, o desemprego, o divórcio, a destituição, a restituição, os trâmites da aposentadoria, certamente esteve só. Não acumulou experiência porque na realidade não soube o que vinha adiante. Não há conquista do oeste, nem cruzadas, nem êxodo, nem nada que se pareça com um esboço, com uma página de cartografia impressa. Há episódios. São varridos por outros. Como rajadas de vento. Ainda que a memória abrace a alguns e não os solte.

A vida vale pouco, quase nada, ou nada. Depende. A vida de uma mulher sozinha e com responsabilidades tem um valor escasso e oscilante. Como a caravana, quando a avistamos enquanto vai ficando cada vez menor, balançando.

Mas eu olho de perto e apalpo sempre que posso. Há pessoas que sabem o que fazem. Alguém lhes ensinou os mapas. Traçam planos ou já os trazem traçados. Conhecem o rumo. Os pontos de chegada. Sei disso não porque o dizem, mas exatamente pelo contrário. Olhar de perto me permite distinguir entre eles e eu. Medir as diferenças. Pesar minhas desvantagens. Passar e passar novamente – como se tratasse de um trabalho de passamanaria – os fios de enlace e desenlace que unem e separam. Levar em consideração, numa escala previsível, a velhice, e seus adereços descosturados. Levar em consideração as derrotas e seus cacos. E os anos que passaram como uma faixa que se enrola ao redor do corpo. Levar em consideração os signos da escrita e trabalhá-los tal qual se faz em ponto-cruz. De olho. De olho fixo no ajuste das bainhas e na leveza recente de fios e tranças, em suas transparências de fundo. Escrever como bordar. Interrompendo a cada tanto. Retomando quando possível. Ser escritora porque não fui costureira. Porque a vida só faz escalas em sua duração. E não a excede. Como se ela percorresse uma página ou uma renda."

--
(OROÑO, Tatiana. "Estado de caravana" in:
La piedra nada sabe. Montevidéu: Casa Editorial HUM, 2008, pp. 77-78. Tradução minha.)

Tatiana Oroño é uma escritora uruguaia contemporânea muito interessante. Também é professora de literatura e crítica literária. Conhecer o trabalho dela vale a pena. Agora o blog terá também, eventualmente, traduções minhas de textos que sejam inéditos em português. Abaixo, o texto original.



"La vida sería un largo trago amargo si no fuera porque se escribe. Yo escribo y reescribo. Voy haciendo escala en borradores de borradores. Las teclas de suprimir, cortar y pegar trabajan más que las veintitantas del alfabecto.

Escribo 'hago escala' pero pienso 'hago mi casa'. No sé por qué escribo distinto a lo que pienso. Será porque al escribir voy corrigiendo lo que pienso y de esa manera voy haciendo un espacio más habitable para que los pensamientos se relacionen. Si sacrifico un pensamiento aislado, si no lo escribo, es para hacerle lugar a más de uno. A la mayor cantidad de los que puedan convivir como gente que se necesita. O que se junta para pasar la noche. Un pensamiento inmóvil como un objeto – carretel, ladrillo, botón, cáscara de huevo – que sirve para algo sí, pero no para seguir escribiendo. Sólo si se intercala con otros pensamientos es que sirve para protegerse.

Las páginas, los borradores, protegen de la vida. Que es imprevisible.

Se vive, en lo relativo al oficio de escribir, en estado de caravana. Se vive y hay que justificar esa única oportunidad. Una mujer que escriba, en Uruguay, mientras pasan los hijos, la dictadura, el desempleo, el divorcio, la destitución, la restitución, los trámites de jubilación, es seguro que estuvo sola. No acumuló experiencia porque en realidad no se supo qué venía más adelante. No hay conquista del oeste, ni cruzadas, ni éxodo, ni nada que se parezca a un dibujo previo, a la página de una cartografía impresa. Hay episodios. Son barridos por otros. Como rachas del viento. Aunque la memoria se abrace a algunos y no los suelte.

La vida vale poco, casi nada, o nada. Según. La vida de una mujer sola y con responsabilidades tiene un valor escaso y oscilante. Como la caravana, si se la mira mientras se va haciendo cada vez más chica, bamboleándose.

Pero yo miro de cerca y palpo siempre que puedo. Hay gente que sabe lo que hace. Alguien les enseñó los mapas. Trazan planes o los traen trazados. Conocen el rumbo. Los puntos de llegada. Me doy cuenta no porque lo digan, sino por lo contrario. Mirar de cerca permite discriminar entre ellos y yo. Medir las diferencias. Tomar en peso mis desventajas. Pasar y repasar como si se tratara de una labor de pasamanería los hilos de enlace y desenlace que unen y separan. Tomar en cuenta, escala previsible, la vejez, y sus cuentas desenhebradas. Tomar en cuenta las derrotas y sus añicos. Y los años corridos como una cinta que se arrollara alrededor del cuerpo. Tomar en cuenta los signos de escritura y labrarlos como una labor de punto. De ojo. De ojo puesto en el ajuste de los engarces y en la levedad reciente de hilos y torsiones, en sus transparencias de fondo. Escribir como si se bordara. Interrumpiendo cada tanto. Retomando cuando se puede. Ser escritora porque no fui encajera. Porque la vida sólo hace escala en su duración. Y no la desborda. Como si recorriera, ella, una página o una puntilla."